Trajetória

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1968, 40 ANOS DEPOIS

Íntegra da entrevista de Genoino à rede Bom Dia

BOM DIA – Como foi o período de sua vida entre os anos de 1964 e 1970, antes de sua ida para o Araguaia?
Genoino – Na época do golpe, eu era estudante secundarista e me identificava com a política. A partir de 1967 comecei a militar e entrei para a UNE (União Nacional dos Estudantes). No ano seguinte, já era filiado ao PC do B em Fortaleza. Naqueles dois anos participei do 29º Congresso da UNE em Vinhedo e fui preso no que chamo de abatedouro do movimento estudantil, em 1968 em Ibiúna. Fiquei detido por dez dias e, depois de minha libertação, no final do ano, fui ao Araguaia, integrar a luta armada contra a ditadura.

BOM DIA - Para o senhor, 1968 representou grandes mudanças? Quais?
Genoino – O ano foi marcante. Um ano de sonho, de liberdade. O mundo todo passava por grandes mudanças. Foi uma época em que era proibido proibir. Nós vivíamos aquilo tanto nas artes, na música e no teatro quanto na política e no comportamento dos jovens. Quem viveu a juventude naquele período sabe que não tínhamos medo e topávamos qualquer parada.

BOM DIA – Quais foram os motivos de sua mudança para São Paulo?
Genoino – Em dezembro de 1967 eu havia me tornado um líder muito conhecido em Fortaleza e era procurado. Então, aderi ao codinome de Geraldo e mudei para São Paulo para viver na clandestinidade, onde não era conhecido. Achavam que era apenas mais um nordestino tentando a vida no Sudeste, mas, na verdade, eu vim para a região para fazer política contra a ditadura.

BOM DIA – Como era sua participação na política estudantil em São Paulo?
Genoino – Eu era mantido pelo PC do B e realizava comícios-relâmpagos em universidades. Chegávamos sempre escoltados por três ou quatro pessoas, reuníamos um pequeno grupo, divulgávamos nossas idéias e, literalmente, saíamos correndo antes da chegada da polícia. Também fazia viagens pelo Interior, em cidades onde havia forte organização política, como Campinas, Ribeirão Preto, Bauru e Botucatu. Nestas cidades, existiam grupos de jovens dispostos a qualquer coisa em prol da democracia.

BOM DIA – Como eram as atuações no Interior, principalmente nas cidades menores?
Genoino – Buscávamos unir a maior quantidade de pessoas interessadas em lutar por liberdade, mas algumas regiões do Estado pareciam mais tranqüilas. Que me lembro, as atuações mais representativas eram onde citei. Não me recordo de militantes em regiões mais afastadas, como Rio Preto ou Prudente, por exemplo. Às vezes víamos pessoas isoladas que vinham a São Paulo com o objetivo único de militar contra a ditadura ou, até mesmo, fazer uma opção pela luta armada.

BOM DIA – O Congresso de Ibiúna terminou com a prisão dos principais líderes da época. Como o senhor vê a estratégia usada na organização do evento?
Genoino – Como disse, o Congresso de Ibiúna foi um verdadeiro matadouro estudantil. Na época havia uma divergência quanto à forma que seria realizado o encontro, se seria aberto ou fechado. Havia muita gente daquela geração que queria fazer barulho e mostrar que as movimentações contra a ditadura eram fortes. No entanto foi decidido que o congresso seria clandestino. Como estávamos em quase mil pessoas, não havia como o encontro passar despercebido numa cidade como Ibiúna. Foi um erro.

BOM DIA – Quarenta anos depois, quais foram os resultados obtidos por aquela juventude?
Genoino – A principal conquista foi o retorno da democracia ao país. Este é o maior registro de que toda aquela utopia, aquela vontade de luta não foi em vão, apesar dos traumas que muitos sofreram na época – com torturas, violência e mortes. Acredito que a juventude brasileira precisa resgatar esses sonhos, essa vontade de defender a própria liberdade e retomar uma postura política que parece adormecida.

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